Quero ser a pessoa que vai no Museu do Holocausto e tira selfie sorrindo

Acordei pensando em pessoas acordando e pensando.

Tenho inveja das pessoas que acordam e tem a mesa de café posta, aí tomam um suco rosa chá – frutas chiques fazem suco dessa cor – e repassam mentalmente o seu dia, enquanto saboreiam um muffin de bluberry: levar o filho na escola, passar no shopping pra comprar um casaco novo, tomar um capuccino com a melhor amiga naquele café bonitinho que tem cadeiras ao ar livre na esquina porque ela quer conversar sobre o marido, pegar o filho na escola, ir ao cinema com ele, …

Eu ando acordando pensando no mundo e confesso que tenho acordado com medo.

Não tenho condições psicológicas de acordar e pensar no sanduíche de 30cm de frango com cream cheese que vou comer mais tarde se no horário nobre de um dos maiores canais de TV mundiais, um casal sociopata é eleito para ser admirado e protegido por suas atitudes terríveis, como se fossem ídolos. “Ah, mas é só um programa de TV, não vale a preocupação…” – Vale. Vale muito. Pesquisei e descobri que foram 508 mil votos. Desses 508 mil votos, 417 mil pessoas votaram para o sociopata, agressor de mulheres, ficar num programa para ter a chance de ganhar um milhão de reais.

Assisto ao telejornal da hora do almoço e vejo uma professora dizendo que ela e os alunos ficam mais deitados na sala de aula do que de pé, por todos os tiroteios que acontecem ao redor da escola. Fico paralisado, não consigo pensar em nada que não seja sobre o que vou fazer com meu vindouro filho.

Um deputado – que não falo mais o nome, porque não faço propaganda pra ele – disse em uma palestra, falando de seus filhos, que “foram quatro homens, na quinta, dei uma fraquejada e veio uma mulher”.E que quando perguntado sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma mulher negra disse “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados.” E “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente.” E “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” E “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida“. entre outras atrocidades.

E vai se candidatar a presidência. E tem vários fãs. Que aplaudem. E se eu lembrar que aquelas 417 mil pessoas que votaram num sociopata em um reality show podem votar nesse deputado pra presidente, eu não consigo mais fazer nada. Fico em choque.

EUA e Rússia quase entrando em guerra. E Coréia se armando. Tô enlouquecendo! E você, não?

Quem me conhece sabe que eu sumi um pouco do Facebook. Foi apenas porque eu não consigo ver uma postagem com um vídeo de crianças sírias se contorcendo no chão pelos gás sarin e logo depois ver uma “amiga” postando fotos em um restaurante de shopping, fazendo um brinde a amizade (Nesse caso, eu me irrito duas vezes: pela banalidade das redes sociais, e pela hipocrisia da amiga que não é amiga nem dela mesma).

Morro de inveja de quem não sabe de nada. Que sabe quem é Dilma, Aécio, Temer, Odebrecht porque ouve esses nomes, mas não sabe nada do que são. Que sabe que aquele velho com cabelo loiro dourado Paola Oliveira Garnier Frutisse é o Trump, e que ele é presidente, mas não tem medo dele. Que ouviu falar do José Mayer, mas não se importa porque vai à praia nesse feriadão. Que sabe dos tiroteios, mas “vai fazer o quê, né? Tenho que comprar os ovos de páscoa.”

Eu quero ser alienado. Eu preciso. De verdade. Para o bem da minha saúde. Mas enquanto não consigo, já marquei um médico.

 

Memorial-do-Holocausto-12

 

 

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