Você tá bem?

Me disseram que eu somente deveria lembrar de coisas boas. Hoje está muito frio. Lembrei que ela brincava comigo quando eu era bem pequeno e estava frio antes de dormir. Dizia que estávamos em um trem e estava nevando, que eu devia me cobrir e dormir para o frio passar até que chegássemos ao castelo.

“Sandro tem uma imaginação…”. Talvez venha daí.

Os últimos quatro anos foram terríveis. Terríveis. Uma confusão de sentimentos. Sentimentos que não pretendo sentir de novo. Infelizmente não posso deixar de sentir. Então sinto, sinto muito.

A última vez que vi meu pai ele estava sorrindo.

Por isso, quando ele foi embora, eu não quis vê-lo. Quis manter a imagem boa.

A última vez que vi minha mãe ela estava com raiva.

Por isso, quando ela foi embora, eu fui vê-la. Em meio a algumas orquídeas que meu primo gentilmente a coroou, ela estava em paz. Pela primeira vez, dormindo em paz. Quero manter essa imagem boa.

Odeio quando alguém morre e falam “descansou”. Acho meio mórbido. Mas nesse caso específico, foi literalmente o que aconteceu.

Os próximos acompanharam todas as dores. Os distantes julgaram todas as dores. Mas só os de verdade sabem de tudo o que nós realmente passamos. E eu sempre, sempre, sempre, mesmo nos momentos mais adversos, sempre disse “eu te amo”.

Quando eu perdi meu pai, eu chorei. Fiquei triste. Foi uma perda. Mas a vida prosseguiu. Agora, que também perdi minha mãe, está tudo meio embaçado. É como se a minha essência, se o que eu sou, deixasse um pouco de existir. Tenho a minha família. Marcos me ama muito. Tenho minha irmã. Meu sobrinho. Meu cunhado. Mas é como se a referência de família sumisse. A sensação que eu tenho é que minha história acabou. E nesse exato momento que escrevo essas linhas, as lágrimas insistem em me dizer que não sei mais quem sou. E eu não sei. Não tenho mais de onde vim. E ando meio perdido de saber pra onde vou.

Me perguntam como eu estou toda hora. Não sei dizer. As vezes estou bem, as vezes estou péssimo. As vezes consigo rir, as vezes só choro. Anda tudo tão sem sentido.

– Eu te amo…

– Não ama, não…

Vamos guardar as memórias boas, por favor?

Orfão. (adjetivo) Que perdeu os pais ou um deles.(Figurado) Desamparado, desvalido; privado.

Não sei se consigo…

 

Um comentário para Você tá bem?

  • Celso Lemos  Diga:

    Sandro, aí vai uma do Carlos Drummond. Por que Deus permite
    Que as mães vão-se embora?
    Mãe não tem limite
    É tempo sem hora
    Luz que não apaga
    Quando sopra o vento
    E chuva desaba
    Veludo escondido
    Na pele enrugada
    Água pura, ar puro
    Puro pensamento
    Morrer acontece
    Com o que é breve e passa
    Sem deixar vestígio
    Mãe, na sua graça
    É eternidade
    Por que Deus se lembra
    – Mistério profundo –
    De tirá-la um dia?
    Fosse eu rei do mundo
    Baixava uma lei:
    Mãe não morre nunca
    Mãe ficará sempre
    Junto de seu filho
    E ele, velho embora
    Será pequenino
    Feito grão de milho

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